Posicionamento epistemológico
Toda ferramenta de análise pressupõe uma teoria do dado.
A maioria pressupõe que o dado existe antes de você chegar, que a análise vem depois do campo, e que interpretar é encontrar o que já estava lá. Esse pressuposto está errado, e as consequências de aceitá-lo sem exame aparecem nos resultados.
O dado é co-produzido no encontro entre pesquisadora, interlocutor e contexto. A separação entre coleta e análise é uma ficção metodológica conveniente, não uma descrição do que acontece. E a ferramenta que você usa para organizar sua análise já carrega uma teoria sobre o que o dado é, mesmo que não diga isso em nenhum lugar.
TRAMA diz.
O dado não precede o encontro
Registrar, transcrever e codificar são todos atos de produção, não de captura. O que você nomeia como "barreira de acesso" já é resultado de um processo que começou antes da transcrição e continua depois dela. A ferramenta que trata o dado como objeto estável falsifica esse processo.
[1] Ingold (2011), Latour (2005), Clifford & Marcus (1986)
Toda interpretação é uma versão possível, não a versão correta
Nomear um trecho é construir uma leitura entre outras leituras legítimas. A validade da análise não vem da eliminação das outras leituras possíveis, mas da explicitação de por que esta leitura, feita deste lugar, com estas perguntas. Reflexividade não é confissão, é método.
[2] Braun & Clarke (2019), Haraway (1988)
A ferramenta não é neutra, e fingir que é custa caro
Uma interface que organiza dados em hierarquias já sugere que o conhecimento é hierárquico. Um sistema que usa IA para sugerir categorias já decidiu que categorias existem antes do encontro. Essas não são escolhas técnicas, são posições epistemológicas inscritas em código. TRAMA recusa essa opacidade.
[3] Vieira Pinto (1960, 2005)
Ler o artigo completo"Você não encontra o dado. Você o produz: no campo, na transcrição, na leitura. A ferramenta que não reconhece isso não é neutra, é ingênua."
Do artigo Codificar é Interpretar